Cia dos Palhaços

MENINA TÍMIDA

Sou filha única. Fui uma criança muito tímida e de poucos amigos. Lia bastante e brincava muito de teatro com minha melhor amiga e meus primos. Meu pai tinha uma caminhonete e eu fazia na carroceria dela um palco. Imitava a Elke Maravilha, algumas cantoras, as Paquitas e as personagens de novela com quem eu me identificava. Quando brincava de barbie era de teatro também, criando histórias mirabolantes. Tive uma infância mágica! Com minha vó e meu vô contando histórias e causos da vida deles e histórias que seus avós contavam. Minha família nunca tinha ido ao teatro, mas gostavam de ir ao circo. Não tinham o hábito de ler mas minha mãe sempre comprava livros e gibis pra mim! Com 12 anos começei um curso de teatro.Depois parei,com muita frustração, porque eu era mais tímida do que achava. No curso, morria de vergonha de fazer os exercícios de teatro, e em casa, sozinha, eu soltava a franga! Minha  mãe achava estranho essa incoerência, esse amor e repulsa, afinal eu só falava de teatro e histórias. Mas nessa época eu só conseguia me expressar escrevendo. E fazia rios de diários e contos e poesias.

 

REPROVADA

Aos 15 anos, depois de reprovar 3 vezes a sexta série (era excelente em português e péssima em matemática) fui estudar no supletivo do Sesi-Cic. Lá conheci duas professoras de arte maravilhosas! Como era apaixonante desenhar, pintar, criar! Uma delas, Analú Sttefen, resolveu oferecer gratuitamente um curso, um grupo de teatro amador. Fui a primeira a me inscrever e fiquei uns dois meses esperando que fechasse o número mínimo de participantes pra começarmos. Nessa época meus pais não podiam pagar um curso de teatro e pra mim foram dois meses que duraram um tempão, tamanha a minha ansiedade. Esse grupo durou uns dois anos e meio e montamos duas peças as quais apresentávamos no auditório do próprio Sesi-Cic e chegamos a viajar algumas cidades com a segunda montagem. Foi uma experiência que me fez sentir que o palco era o lugar onde eu sempre queria estar. Eu fazia os meus figurinos, criava as maquiagens, pirava nas personagens!

 

PERFORMER

Aos 17 anos queria e precisava arranjar algum trabalho. Fui ao antigo Estação Plaza Show onde havia alguns trabalhos de atores e sem conhecer ninguém fui atrás das pessoas que contratavam os atores. Consegui os contatos e dois dias depois fui contratada por um mês pra fazer performances. Pude trabalhar com Élcio e Simone Kobachuk, ensaiando esquetes e fazendo performances de diversas personagens. Era um paraíso! Nessa época conheci Rafael Petzet Barreiros (atualmente Palhaço Alípio) que na época não era palhaço, mas estudava teatro no grupo Tecefet, com a professora Cleonice de Queiróz (da qual eu viraria fã, pelo excelente trabalho que desenvolveu com o grupo de teatro formado por alunos do Cefet, do qual saíram vários artistas). Bem, o mês acabou e a direção do Estação Plaza Show trocou os responsáveis pelas performances: saíram Élcio e Simone e entrou outra pessoa, que era professora de teatro no Colégio Estadual do Paraná. Continuei por alguns dias, mas a nova contratante queria pôr os alunos dela pra fazer todas as performances e pra mim sobrava fazer os bichinhos (dentro das roupas de pelúcia)! Fiquei decepcionada, afinal achava que não tinha nada a ver fazer bichinho de pelúcia em plena primavera, além disso, me atacava a rinite alérgica. Então saí.

 

A DESCOBERTA

Trabalhei com o Rafael na segunda montagem amadora com a Analú Sttefen e, nossa! Ele era ótimo ator! Nunca tinha conhecido ninguém que eu admirasse tanto! Quando o grupo do Sesi se desfez, fiquei meio perdida, meio sem saber o que fazer pra continuar a fazer teatro. O Rafael estava começando a estudar Palhaço, tinha feito oficina com Renato Nadalini e Isabele Pereira, que eram Palhaços. Palhaços de verdade, com apresentações, projetos, pesquisa e estudo. Palhaços profissionais. Eu nunca tinha gostado muito de palhaços. Quando ia ao circo não achava muita graça do palhaço. Mas quando assisti a dupla "Siricutico e Cebola" (com o Renato e a Isabele), meu Deus! Foi absolutamente fantástico! Eram palhaços como eu nem sonhava que pudessem existir! Eram tão imensamente humanos e poderosos! Era encantador, lindo! Fiquei deslumbrada!

 

FOTOALERGIA SERVE PARA ALGO

Algum tempo depois o Rafael já fazia o Alípio de vez em quando, ele e dois amigos (Michelle Corrêa e Luiz Celso Junior) foram fazer palhaço em animação de festas. Primeiro porque era uma forma de estudar o palhaço na prática e depois porque dava um dinheirinho. Me chamaram. Nesse momento eu tinha feito mais um mês de performance, dessa vez um restaurante, o infelizmente extinto Carson Family, no qual eu fora chamada por um amigo que trabalhara comigo no Estação. Nesse trabalho criei alguns personagens performers e um deles era a Sofia Blue, uma menina com vestido e maquiagem azul. Topei trabalhar com eles em animação de festas, porém eu não iria de palhaça, mas de performer com a personagem Sofia. Nessas animações a gente brincava com as crianças, fazia camarim de pintura e escultura de balão - tudo muito novo na época, em 2002, ainda não era moda. Tem uma coisa que a Michelle dizia que nunca me esqueço: "Fazer festa anima a gente!" E sempre animou mesmo! Bem, mas eles eram os palhaços Alípio, Pimbolim, e Margarida. E eu a personagem Sofia. Eu não queria fazer palhaço porque não me achava digna de usar um nariz vermelho. Afinal, eu não sabia ser palhaça, pensava. Aprendi com eles, mas não podia usar nariz sem estudar o palhaço, não seria justo! Foi quando surgiu o nome "Sombrinha": porque tenho Fotoalergia e nunca tomo sol direto, sempre uso uma sombrinha sob o sol. Então me disseram: "E por que não Palhaça Sombrinha?" Eu amei! Era o nome perfeito pra mim! Além disso, quando trabalhava nas festas com uma sombrinha, todos achariam que eu usava sombrinha por causa do meu nome, e não o contrario.

 

CUECA-VIRADA E CEBOLA

Trabalhamos muito em festas infantis e o Alípio era minha dupla. A grana não dava nem pra fazer cartão de visita. Fazíamos xerox em forma de cartão. Nessa época o Rafael também fazia pão e cueca-virada com minha avó e vendia em sua faculdade. Eu vendia cosméticos de porta em porta em toda a vizinhança. O trabalho de palhaço ajudava no trabalho de vendedores e vice e versa. Fazíamos também eventos em empresas e escolas. Eu já conhecia a Isabele Pereira, sempre assistíamos Siricutico e Cebola. Perdi a conta de quantas vezes fomos vê-los. A mesma peça e, no entanto, diferente a cada apresentação!

 

PRIMEIRO PASSO

Um dia, trabalhando no mesmo evento que a Cebola falei pra ela que amava seu trabalho (ainda mais por ela ser uma palhaça mulher, a primeira palhaça mulher de Curitiba!). Ela disse que a Cia do Abração, onde dava aulas de palhaço, faria um concurso de bolsas de oficinas e que eu fosse tentar. Caramba, emocionante! O concurso foi uma entrevista com as pessoas interessadas e eu fui tentar com a certeza de que eu não passaria. Pra minha total surpresa e indescritível alegria eu passei! No primeiro dia de aula ela me disse que eu passara porque já estava trabalhando como palhaça mas eu era muito ruim! Que choque! E eu achando que tava abafando e por isso ela me escolhera! Mas foi o primeiro passo pra eu ser palhaça. Foi onde eu decidi que é isso que eu quero fazer pro resto de minha vida! Fui aluna bolsista da Isabele por uns três anos. Ela foi e é minha grande Mestra. Falava (e fala) o que tem que ser dito. Depois do primeiro ano de oficina com ela comecei a usar um nariz vermelho. Foi meu diploma. Me senti digna, porque me foi dado por uma palhaça, a qual continua sendo a palhaça que eu mais amo! A Isabele me ensinou o be-a-bá e também coisas que só hoje, anos depois, eu consigo entender. Sempre penso nela quando faço outras oficinas. Ela deu minha base e minhas raízes como palhaça.

 

HORIZONTES

Mas depois de um tempo é necessário conhecer o mundo sob outros pontos de vista. Fiz três anos de faculdade, licenciatura em teatro, mas não quis continuar. Minha prioridade cada vez mais era o palhaço. Estudar, pesquisar e principalmente vivenciar e me deliciar nesta Arte. Conheci palhaços inesquecíveis. Fiz oficinas com alguns deles. Marcio Libar, Ricardo Puccetti, Léo Bassi, Marcio Ballas, meu Deus, um universo todo a ser descoberto! A cada descoberta, mais aumenta a paixão pela arte do palhaço! Mas mais me concientizo que "a rapadura é doce mas não é mole", como diz Marcio Libar. Tem que estudar muito e pra sempre.

 

PRÓXIMOS CAPÍTULOS

Nessa trajetória conheci almas afins, grandes companheiros de jornada e é deles que vou falar da próxima vez: dos meus amigos da Cia dos Palhaços. Falarei também sobre os Mestres com os quais tive oportunidade de me conhecer mais e de aprender sobre essa arte edificante e sedutora do Palhaço. Ah! Ser palhaça pra mim é minha profissão, meu ofício, minha labuta, minha missão, minha salvação, meu desafio, minha necessidade e filosofia de vida! Não sou boa nem sou ruim, sou apenas eu mesma numa busca incessante por Ser e Estar. Com erros e aprendizados, com lágrimas e sorrisos. E muitos encontros felizes!

 

Com amor, Milene Lopes Dias - Palhaça Sombrinha

Topo

A Cia | Agenda | Espetáculos | Palhaços | Fotos | Acontece no Espaço | Fazemos também...

Página Inicial Adicionar a Favoritos Fale Conosco

Cia dos Palhaços 2009. Todos os direitos reservados

Design by: MKC|2